Um exercício de Lucidez
São cada vez mais os que se insurgem contra esta democracia podre que nos querem vender.
"Se isto é democracia... que venha a ditadura!"
Frases como esta ouvem-se cada vez com maior frequência e isto é perigoso!
Convém que os nossos (des)governantes comecem a olhar com mais atenção para isto. Não é só na Hungria que há levantamentos populares...
Não tarda nada, começamos a pensar que para correr com esta "cambada" temos que entrar em desobediência civil.
Lusitano
O estado dos escombros
António Manuel Ribeiro(Músico (UHF) e Autor)
Já aqui escrevi, e por isso repito-me, que, no enquadramento económico e político que conduziu à queda do último Governo PSD, onde Santana teve assento fugaz, Portugal precisava de um Governo de salvação nacional onde entrassem os melhores, os mais sérios administradores, os mais capazes. De leste a oeste, no espectro político, ouviu-se o habitual "nem pensar". Que o sistema democrático encontra sempre soluções, como se tem visto; que a alternância está aí para resolver os pecados cometidos, como se sabe com óptimos resultados; e mais blá-blá-blá costumeiro.
Quando dei o meu parecer, pequenino e humilde, fi-lo na convicção que o sistema partidário português está esgotado na sua tão querida alternância, e, trinta e dois anos depois de Abril, consumimos o pior da democracia dos partidos: a sua voracidade para as benesses da teta do Estado; a alternância de clientelas partidárias a servirem-se à vez, como se isso fosse um acto natural da democracia; os escombros que estão por aí, apesar dos tapumes com anúncios gigantes.
Esta maioria do PS, quando as luzes se apagarem e a porta se fechar para os novos senhores eleitos, terá deixado uma parte do país irreconhecível e os estragos farão, em muitos casos irremediavelmente, parte da paisagem a que nos vamos habituando.
Com um discurso em repetição – Sócrates tem umas quantas frases que repete até ao enjoo em cada improviso sobre tudo e sobre nada –, o PM que nos coube acha-se predestinado a um desígnio brilhante: “porque é bom para Portugal e é bom para os portugueses (…) e se é bom para os portugueses, é bom para Portugal”, é sua esta máxima oratória repetida até à exaustão, com os olhos em vácuo. E di-lo com a maior calma do mundo, aparente, porque o senhor é irritadiço, a propósito da OTA, do fim das compensações em medicamentos de que os nossos mais velhos carecem para a sua sobrevivência, ou da avaliação dos professores pelos encarregados de educação e por aí fora.
Teve o perverso mérito político de conseguir pôr todo o país de acordo com o fim de algumas regalias da função pública; esqueceu-se que, num país com 700.000 funcionários públicos, há sempre um em cada família. Por isso, a contra onda há-de chegar.
Claro que eu, como todos os que precisam de entrar numa repartição pública, já senti a ineficácia da máquina, a desmotivação, a perca de tempo sem qualquer razão que não seja o pequeno e miserável exercício do poder que o salazarismo nos deixou. Mas, serão eles a primeira causa do “monstro” financeiro a que isto chegou? Quanto custa ao Orçamento do Estado (OE) o disparo nos custos finais de cada obra pública – imaginem os casos próximos da OTA e do TGV?
Dou-vos um exemplo: o sorvedouro dos dinheiros públicos, e a incompetência de sucessivos governos, com as obras e o seu repetido falhanço no túnel do metro do Terreiro do Paço, daria para sustentar quantas pensões de sobrevivência? Podemos confiar numa classe política irresponsável que se acha julgada e condenada quanto baste sempre que o voto muda de cor numa próxima eleição?
Custa-me entender que os que trabalham, ou que têm um emprego, sejam a infantaria desta recuperação económica. Mas são por certo os que estão mais à mão.
Os impostos, sobretudo os disfarçados, aumentam; os benefícios diminuem; os direitos adquiridos deixaram de o ser; o famoso estado social europeu tem musgo; o liberalismo instalou-se, com os lucros monstruosos dos bancos em tempo de crise à cabeça – e não é pelo apoio e risco à criação de novas empresas.
Fazendo-se a recuperação económica por uma política de restrições e míngua (algumas necessárias, é certo), esquecemos que o motor da economia de uma nação está no investimento, na produção de bens e na sua exportação. Numa altura em que tanto e tão estupidamente se fala em investimento estrangeiro, numa altura em que as fábricas internacionais fecham inexoravelmente as portas por aqui, depois de esgotadas as benesses que todos os governos ofereceram a troco de uma inauguração, ainda não percebi porque não se pede aos portugueses com dinheiro que invistam no seu próprio país e abdiquem dos benefícios disponíveis como parte do sacrifício que a todos é pedido.
Depois destas reformas, senhor PM, o país vai ficar mais pobre, os marginalizados mais aquém de nós, a nação vai acordar e adormecer menos solidária, mais pequena, mais invejosa, mais revoltada, e estes são os índices psicológicos que encolhem uma nação e determinam a pequenez do seu futuro.
O senhor quer resultados a qualquer preço, encetou as chamadas reformas a qualquer preço, diz que corta a eito, mas só bate nos mais fracos. Quando, como este ano, a função pública vai receber de aumento (chamam-lhe pomposamente ajuste) uma diminuição efectiva no salário, as prestações que os bancos cobram pela alegre (ver publicidade na TV) poupança-habitação sobem sem comoções.
Um velho, na farmácia, pergunta a nova soma dos velhos medicamentos que lhe afinam o coração, e deixa alguns para trás. O senhor ignora, na solidez granítica de São Bento. À porta dos hospitais cobram-se taxas por internamento, taxas por cirurgia, enquanto algumas urgências fecham e o tempo de estrada vai matar continuamente, no interior das ambulâncias, os menos afortunados, valha isto o que valer.
O país não é Lisboa, apesar da voracidade da TV o determinar. A imensa franja de mirones que gostava de ter uma casa a que pudesse chamar casa, ouve a fantástica Sara Tavares dizer que a “a minha casa é a minha vida”. E não é. Ou não devia ser. Uma casa são quatro paredes e a vida está cá fora.
Cem mil manifestantes invadiram Lisboa a semana passada e o senhor disse, incomodado e rígido, que as reformas iriam continuar e não seria sensível à pressão dos lobbies. Ou o senhor não sabe o que é um lobby (há muito que os sindicatos perderam essa força) ou há sinistras centrais de desestabilização neste país, agrupando os mais desfavorecidos. Os mesmos que lhe ofereceram o seu voto e confiaram nos 150 mil postos de trabalho que o senhor prometeu em debate eleitoral na TV, o dedo em riste contra Santana Lopes.
Joe Berardo aparece à beira de um precipício, vestido com o único fato que sabe usar, sentado numa poltrona a anunciar os benefícios de um cartão de crédito. O sorriso, bem, não o vou caracterizar. Quem é rico já tem o cartão, mas não é verde; quem gostaria de o ter sabe o que vai pagar e foge do precipício.
Em Agosto passado os jornais anunciavam que os juros das contas ordenado que os bancos tanto proclamam, podem chegar aos 21 por cento, o mesmo valor do IVA em cada CD de música portuguesa, um objecto de luxo, como se sabe. É a surdez de uma política sem cultura. E sem cultura um povo não se inscreve na história.
Posto isto, que é pouco no muito que todos os dias os portugueses anónimos sofrem e calam, porque acham que a vida é um castigo e será sempre um sacrifício, as greves andam por aí. Acho curioso que a insubordinação pura e dura não tenha surgido, a democracia do povo nas ruas enfrentando o poder instituído. Olho para a história recente e lembro-me da Argentina, da Venezuela e da França, aqui ao lado. Mas os portugueses são envergonhados, por enquanto.
Já fomos um país de Afonso Henriques e de Aljubarrota. Hoje, dessa coragem e atitude, fica-nos o artesanato feito na China e os novos jogos da playstation.
In Setúbal na Rede -19-10-2006 11:54 António Manuel Ribeiro
Já aqui escrevi, e por isso repito-me, que, no enquadramento económico e político que conduziu à queda do último Governo PSD, onde Santana teve assento fugaz, Portugal precisava de um Governo de salvação nacional onde entrassem os melhores, os mais sérios administradores, os mais capazes. De leste a oeste, no espectro político, ouviu-se o habitual "nem pensar". Que o sistema democrático encontra sempre soluções, como se tem visto; que a alternância está aí para resolver os pecados cometidos, como se sabe com óptimos resultados; e mais blá-blá-blá costumeiro.
Quando dei o meu parecer, pequenino e humilde, fi-lo na convicção que o sistema partidário português está esgotado na sua tão querida alternância, e, trinta e dois anos depois de Abril, consumimos o pior da democracia dos partidos: a sua voracidade para as benesses da teta do Estado; a alternância de clientelas partidárias a servirem-se à vez, como se isso fosse um acto natural da democracia; os escombros que estão por aí, apesar dos tapumes com anúncios gigantes.
Esta maioria do PS, quando as luzes se apagarem e a porta se fechar para os novos senhores eleitos, terá deixado uma parte do país irreconhecível e os estragos farão, em muitos casos irremediavelmente, parte da paisagem a que nos vamos habituando.
Com um discurso em repetição – Sócrates tem umas quantas frases que repete até ao enjoo em cada improviso sobre tudo e sobre nada –, o PM que nos coube acha-se predestinado a um desígnio brilhante: “porque é bom para Portugal e é bom para os portugueses (…) e se é bom para os portugueses, é bom para Portugal”, é sua esta máxima oratória repetida até à exaustão, com os olhos em vácuo. E di-lo com a maior calma do mundo, aparente, porque o senhor é irritadiço, a propósito da OTA, do fim das compensações em medicamentos de que os nossos mais velhos carecem para a sua sobrevivência, ou da avaliação dos professores pelos encarregados de educação e por aí fora.
Teve o perverso mérito político de conseguir pôr todo o país de acordo com o fim de algumas regalias da função pública; esqueceu-se que, num país com 700.000 funcionários públicos, há sempre um em cada família. Por isso, a contra onda há-de chegar.
Claro que eu, como todos os que precisam de entrar numa repartição pública, já senti a ineficácia da máquina, a desmotivação, a perca de tempo sem qualquer razão que não seja o pequeno e miserável exercício do poder que o salazarismo nos deixou. Mas, serão eles a primeira causa do “monstro” financeiro a que isto chegou? Quanto custa ao Orçamento do Estado (OE) o disparo nos custos finais de cada obra pública – imaginem os casos próximos da OTA e do TGV?
Dou-vos um exemplo: o sorvedouro dos dinheiros públicos, e a incompetência de sucessivos governos, com as obras e o seu repetido falhanço no túnel do metro do Terreiro do Paço, daria para sustentar quantas pensões de sobrevivência? Podemos confiar numa classe política irresponsável que se acha julgada e condenada quanto baste sempre que o voto muda de cor numa próxima eleição?
Custa-me entender que os que trabalham, ou que têm um emprego, sejam a infantaria desta recuperação económica. Mas são por certo os que estão mais à mão.
Os impostos, sobretudo os disfarçados, aumentam; os benefícios diminuem; os direitos adquiridos deixaram de o ser; o famoso estado social europeu tem musgo; o liberalismo instalou-se, com os lucros monstruosos dos bancos em tempo de crise à cabeça – e não é pelo apoio e risco à criação de novas empresas.
Fazendo-se a recuperação económica por uma política de restrições e míngua (algumas necessárias, é certo), esquecemos que o motor da economia de uma nação está no investimento, na produção de bens e na sua exportação. Numa altura em que tanto e tão estupidamente se fala em investimento estrangeiro, numa altura em que as fábricas internacionais fecham inexoravelmente as portas por aqui, depois de esgotadas as benesses que todos os governos ofereceram a troco de uma inauguração, ainda não percebi porque não se pede aos portugueses com dinheiro que invistam no seu próprio país e abdiquem dos benefícios disponíveis como parte do sacrifício que a todos é pedido.
Depois destas reformas, senhor PM, o país vai ficar mais pobre, os marginalizados mais aquém de nós, a nação vai acordar e adormecer menos solidária, mais pequena, mais invejosa, mais revoltada, e estes são os índices psicológicos que encolhem uma nação e determinam a pequenez do seu futuro.
O senhor quer resultados a qualquer preço, encetou as chamadas reformas a qualquer preço, diz que corta a eito, mas só bate nos mais fracos. Quando, como este ano, a função pública vai receber de aumento (chamam-lhe pomposamente ajuste) uma diminuição efectiva no salário, as prestações que os bancos cobram pela alegre (ver publicidade na TV) poupança-habitação sobem sem comoções.
Um velho, na farmácia, pergunta a nova soma dos velhos medicamentos que lhe afinam o coração, e deixa alguns para trás. O senhor ignora, na solidez granítica de São Bento. À porta dos hospitais cobram-se taxas por internamento, taxas por cirurgia, enquanto algumas urgências fecham e o tempo de estrada vai matar continuamente, no interior das ambulâncias, os menos afortunados, valha isto o que valer.
O país não é Lisboa, apesar da voracidade da TV o determinar. A imensa franja de mirones que gostava de ter uma casa a que pudesse chamar casa, ouve a fantástica Sara Tavares dizer que a “a minha casa é a minha vida”. E não é. Ou não devia ser. Uma casa são quatro paredes e a vida está cá fora.
Cem mil manifestantes invadiram Lisboa a semana passada e o senhor disse, incomodado e rígido, que as reformas iriam continuar e não seria sensível à pressão dos lobbies. Ou o senhor não sabe o que é um lobby (há muito que os sindicatos perderam essa força) ou há sinistras centrais de desestabilização neste país, agrupando os mais desfavorecidos. Os mesmos que lhe ofereceram o seu voto e confiaram nos 150 mil postos de trabalho que o senhor prometeu em debate eleitoral na TV, o dedo em riste contra Santana Lopes.
Joe Berardo aparece à beira de um precipício, vestido com o único fato que sabe usar, sentado numa poltrona a anunciar os benefícios de um cartão de crédito. O sorriso, bem, não o vou caracterizar. Quem é rico já tem o cartão, mas não é verde; quem gostaria de o ter sabe o que vai pagar e foge do precipício.
Em Agosto passado os jornais anunciavam que os juros das contas ordenado que os bancos tanto proclamam, podem chegar aos 21 por cento, o mesmo valor do IVA em cada CD de música portuguesa, um objecto de luxo, como se sabe. É a surdez de uma política sem cultura. E sem cultura um povo não se inscreve na história.
Posto isto, que é pouco no muito que todos os dias os portugueses anónimos sofrem e calam, porque acham que a vida é um castigo e será sempre um sacrifício, as greves andam por aí. Acho curioso que a insubordinação pura e dura não tenha surgido, a democracia do povo nas ruas enfrentando o poder instituído. Olho para a história recente e lembro-me da Argentina, da Venezuela e da França, aqui ao lado. Mas os portugueses são envergonhados, por enquanto.
Já fomos um país de Afonso Henriques e de Aljubarrota. Hoje, dessa coragem e atitude, fica-nos o artesanato feito na China e os novos jogos da playstation.
In Setúbal na Rede -19-10-2006 11:54 António Manuel Ribeiro
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