VOZES VINDAS DAS ESCOLAS
- Hoje, o meu grupo disciplinar reuniu-se para escolher o manual a adoptar pela escola para o 7.º ano de escolaridade. Todos, sem excepção, apresentam o preço de 17.42€ cêntimos. A única diferença, mas ao nível dos cêntimos, está nos cadernos de actividades. A autoridade para a concorrência não devia ver estas coisas? Havia nove(!) manuais para escolha. Qual é o professor que consegue fazer um estudo exaustivo, correcto e honesto de tantos manuais, sabendo que os foi recebendo a partir do fim de Abril, tempo em que todo o trabalho de fim de ano se acumula?
(Maria Pereira Stocker)
- Na (minha) qualidade de professor do ensino secundário (há 32 anos a ensinar Física) (...) permito-me enviar-lhe algumas achegas. (...)1. Sobre a componente não lectiva e o local da sua concretização, há problemas ainda não equacionados. Um deles é o da exposição do professor a ambientes agressivos e ruidosos. De facto, se há uma parte da componente não lectiva que pode /deve ter lugar na Escola, para reuniões e outras coisas parecidas, tal parcela deve ser pequena —reduzida ao mínimo— pelas seguintes razões:a) as escolas em geral não têm gabinetes para albergar um grande número de professores em simultâneo; foram concebidas partindo do pressuposto de que a componente não lectiva é passada fora da Escola (por exemplo em casa do professor); desse modo, poucos são os professores que num dado, momento estariam na escola ao mesmo tempo: quando uns saiam entravam outros.b) mesmo nas escolas que possuem alguns gabinetes, quase todos esses gabinetes têm portas que dão para corredores onde passam alunos a falar aos berros, a gritar intencionalmente, a bater às portas, etc.; quem é que consegue (eu não consigo!) fazer trabalho útil no meio do barulho ?c) também é de considerar o problema nas próprias salas de professores, onde alguns/algumas colegas não se coíbem de falar alto, mesmo quando estão a ver outro colega a corrigir testes, a preparar lições, etc.d) as condições de b) e c) tornam o trabalho da componente não lectiva (quando prestado na Escola) penoso, triplamente cansativo, frustrante e de escasso rendimento;As condições acima referidas propiciam um desgaste acrescido e inútil por exposição demorada ao ruído. Sabe-se quais são as consequências a médio/longo prazo de tal exposição excessiva e ao "stress" dela derivado (os psicólodos e os psiquiatras têm documentação). É certo que uma escola é, por definição, um local onde se reúne muita gente, professores, alunos, etc., mas essa exposição ao ruído deve ser reduzida ao fundamental. Por isso, a não ser que haja gabinetes acusticamente isolados, vidros duplos, etc., não será viável o prolongamente exagerado da componente não lectiva nos espaços das Escolas.2. Continua a esperar-se do professor um verdadeiro milagre. No entender dos mais "iluminados" governantes, trata-se de um profissional "multifacetado e de largo espectro" que é, ao mesmo tempo, psicólogo, psiquiatra, assistente social, animador, bom encaminhador de jovens, divertido, sempre bem disposto e transbordante de energia, despistador de casos de uso de drogas, domador de delinquentes, perspicaz educador e ainda agente interactivo escola-família-comunidade. Também se pretende que seja de vez em quando palhaço quanto baste (com a respectiva bola vermelha no lugar do apêndice nasal) e pouco faltará para termos de equilibrar uma bola na ponta do nariz, como as focas do circo! Depois de tudo isto, e como pequeníssimo pormenor, o professor também **ensina** uma determinada disciplina (Matemática, Biologia, Português, Física, Inglês, História, etc.). Mas este último aspecto será (dizem os "iluminados") cada vez mais irrelevante, a bem das primeiras componentes da profissão, já referidas....(...)
(Guilherme de Almeida)
"Dessas 60 mil pessoas que se candidataram e não foram contratadas, só cerca de um terço eram professores, outros eram pessoas que se candidataram ao lugar de professor" e "nunca foram professores na vida", afirmou aos jornalistas em Resende, Viseu. É urgente explicar ao Senhor Primeiro Ministro que o concurso em questão se destina ao preenchimento de vagas de Quadros de Escola ou de Quadros de Zona Pedagógica, o que implica ser profissionalizado, ser mesmo professor portanto.Eles não estão a candidatar-se ao lugar de professores. Eles são professores. Como é possível ficar tudo calado e não repor a verdade?Estes não colocados irão passar para um concurso de professores contratados e a maioria dos contratados também tem habilitação profissional.Sabia, não sabia, Senhor Primeiro Ministro?Todos os dias são dias de dizer a verdade e só a verdade, sobretudo quando se trata de pessoas que prometeram exercer as suas funções "com lealdade".
(Madalena Santos, Professora do Ensino Básico, Montijo.)
- (...) é o próprio Ministério da Educação quem ajuda a confundir domínios que devem ser discriminados, dado que o texto é marcado por um problema estrutural de organização temática. Era importante que um novo ECD distinguisse com clareza – seja por capítulos; seja por princípios orientadores explícitos; seja por qualquer outro processo; seja por vários factores em conjunto – aquilo que é matéria propriamente laboral (ou de cariz sindical) daquilo que é matéria deontológica (ou pedagógica e ética) da profissão docente. Mesmo que se continue a evitar a questão da constituição de uma Ordem de Professores (constituição que na actual conjuntura não parece essencial, até porque provavelmente uma Ordem ficaria mais próxima de reproduzir a fragmentação sindical do que de traduzir uma voz coesa de um corpo profissional demasiado heterogéneo), reformar o ensino sem a preocupação de estabelecer de génese a distinção referida é curto, precisamente porque será continuar a pôr no colo dos sindicatos aquilo que é, misturado com aquilo que pura e simplesmente não deve ser da sua competência. Reside aqui uma incongruência elementar de quem, de peito aberto, está, bem ou mal, a combater o poder de uma elite de representantes sindicais, mas que depois, por culpa do seu mau tpc, vê-se obrigado a conceder a essa mesma elite o monopólio da representatividade de um complexo, contraditório e multifacetado corpo docente. A fuga em frente resultante desse mau trabalho prévio tem sido o folclore agravante de envolver na vida interna das escolas os pais, as associações, o poder local e outros, invadindo o domínio estrito da função docente, com prejuízo generalizado cuja factura normalmente demora a chegar mas será invariavelmente pesada. O documento proposto carece, de facto, de muita e muita reflexão e clarificação. Se calhar até de ser reelaborado de raiz. «Despachá-lo» em poucos meses é brincar com aspectos essenciais de todo um projecto de sociedade. Ao menos nisso estou de acordo com a Fenprof. Juristas, intelectuais, políticos, jornalistas e demais pensadores seniores não podem colocar o corpo de fora deste tipo de discussão concreta, como têm feito, nem perderem-se em generalidades mais ou menos especulativas (basta ler a imprensa), para que mais tarde não venham, uma vez mais, ditar sentenças de cátedra depois de mais um desaire do sistema educativo que não é difícil prever desde já. Aliás, o Partido Socialista nesta fase dever-se-ia centrar nas questões contratuais ou laborais e deixar de brincar às tipologias do bom professor à moda das «ciências da educação». Mas para isso era necessária sensibilidade política e tratar os grupos profissionais com a dignidade que merecem. Parece-me que o tempo político da Ministra da Educação esgotou-se. Pau que nasce torto...
(Gabriel Mithá Ribeiro)
- No Público de hoje, a ministra da Educação dá a cara por uma proposta cerca de uma semana depois de ela ter sido apresentada. Ter aparecido com a entrevista de hoje há uma semana atrás, poderia nada ter resolvido mas evitava a imagem de estar a reagir aos críticos. Mas há muito nos habituámos a que este ministério ateie pequenos fogos e depois surja a apagar os mesmos. Infelizmente também nos habituámos à reacção extemporânea de uma classe corporativista e de uns sindicatos que de pedagogia pouco mostram saber. Para tal basta ver muitos dos comentários feitos neste blog. É o caso dos "29" itens que definem a função de professor e que pouco ou nada acrescentam ao que já era suposto serem funções dos docentes, mas que alguns críticos parecem desconhecer. Também a reacção de alguns à avaliação é irónica se tivermos que vem de profissionais que fazem da avaliação um instrumento – avaliar sem ser avaliado? – e as leituras em diagonal que muitos fazem desconfiar da preparação e leitura efectiva que atribuirão a documentos de trabalho.Estamos perante uma proposta, não seria interessante discutir a mesma de forma inteligente? Quando uma carreira de 10 escalões se reduz a 6, não seria legítimo pedir a tabela de equivalências para a conversão de tempo de serviço e de salário?São muitas as classes de licenciados em que o acesso à carreira só é feito após prova, serão os docentes diferentes? Creio que não e basta ver a falta de cultura e conhecimentos básicos de muitos professores.Quanto à avaliação dos pais, confesso que não me choca e noto que é mais bem recebida por docentes que são pais do que por docentes solteiros. Ouço os sindicatos falar em "habilitações pedagógicas", mas onde está isso referido? Em algum sítio se estipula em que medida os pais vão efectuar a avaliação? Os Encarregados de Educação podem não saber nada de disciplinas, mas certamente saberão melhor que ninguém quando um professor falta, ou quando ocupa a aula a discutir a sua vida pessoal em lugar de leccionar, ou se atrasa na correcção de testes para lá do desejável. Não serão estes itens suficientes para distinguir o bom do mau docente? Talvez os sindicatos fizessem melhor em discutir estes temas que em marcar greves para dias a seguir a feriados e assim teríamos um ministério a ter de dar a cara pelas suas políticas e a saber que não bastava anunciar as mesmas e que as teria de realmente fundamentar. No momento actual acabam os sindicatos e os docentes exaltados a ser o melhor justificativo das políticas ministeriais
(Emanuel Ferreira, docente do 3º Ciclo)
- A Ministra foi populista e fez eco da crítica comum de que os professores são os responsáveis pela calamidade educativa portuguesa. Não apresenta evidências de que assim seja. Mas por que razão a Ministra da Educação e outros agentes das esferas do poder se dão ao luxo de falar assim desta classe profissional? Na realidade, os professores são responsáveis, não propriamente pelo facto de ensinarem mal ou de serem intrinsecamente maus professores. A responsabilidade é mais funda. É que desde há algumas décadas os professores abdicaram da sua vocação intelectual, ou mantiveram-na só para aquilo que interessa em cada conjuntura ou momento, aceitando em troca incluir-se na bolsa de sustentação do poder político e económico.O poder, é sabido, precisa destas bolsas de sustentação, e um grupo como os professores é fundamental que seja "capturado" para o pleno exercício do poder actual. Fala-se em "democratização" do ensino, mas isso é um eufemismo. Com certeza algo corresponderá a isso, mas na essência o que se deu foi um fenómeno de "massificação do ensino", o que não é exactamente a mesma coisa. Nesse processo, foi preciso apresentar taxas de sucesso, níveis de ensino em grande escala, impedir o abandono escolar, etc. Ou seja, o aparelho educativo esteve ao serviço de objectivos sociais, económicos e políticos que pouco têm a ver com o verdadeiro ensino. E em troca de favores profissionais e de um certo teor de vida, entre outras vantagens, a "classe profissional" dos profs. alimentou estes objectivos extra-educativos. Numa palavra, vendeu-se ao poder.Evidentemente, o nível de formação e de conhecimentos dos alunos tem-se ressentido drasticamente. Mas os professores têm estado sempre cegos, surdos e mudos. Sempre muito mais preocupados com os seus interesses profissionais e com a sua carreira, enfim, com a sua vidinha. Não se importaram, portanto, durante estes anos, de se submeterem a um processo de proletarização que lhes retirou muita da credibilidade que possuiam, sendo natural que agora o poder os trate como párias e não nutra por eles o mínimo respeito. E os restantes actores também não, designadamente, os pais dos alunos, que não vêm com bons olhos os resultados obtidos. Que pretendem agora os professores? Já nada podem fazer. Podem fazer greves e manifestações. Mas não têm mais crédito que qualquer outro grupo social. E perderam o apoio da sociedade, e agora falam sozinhos no deserto. Isto é uma análise generalíssima. Não se pretende pôr em causa os muitos professores que ensinam bem e que fazem das tripas coração para que os alunos passem e se formem, etc. Mas isso não pôe em causa a minha tese central: os professores, enquanto classe, prostituiram-se ao poder e agora são tratados como rameiras do sistema. E se querem ter emprego e fruir ainda de algumas migalhas do poder têm que aceitar a "grelha" que lhes é imposta e conformar-se.O servilismo e a apatia de anos vão sendo agora cada vez mais evidenciados, e pelo próprio poder, o que não é surpreendente. Ainda me recordo quando aqui há uns anos se negociou o Estatuto da Carreira Docente (penso que em 1997), e estava em causa a saída do ensino de centenas de professores provisórios que durante anos foram os colegas de segunda, mas muitos deles com provas de dadas de qualidade e dedicação, que ficavam sempre com as piores turmas e até ganhavam menos. Estava em causa na mesma altura, através da uma reforma do ensino secundário, o desparecimento de disciplinas como Introdução à Antropologia ou Jornalismo. A "classe" dos professores e os sindicatos nada fizeram caso disso, e negociaram o Estatuto e a reforma sem o mínimo de solidariedade por esses colegas, muitos com família, que ficaram sem trabalho, e muitos continuam no desemprego porque estiveram 10, 15, 20 anos nessa situação provisória e agora não têm onde se agarrar... E quando estes fizeram manifs. à porta do Ministério estavam sozinhos, porque a "nobre" classe dos profs. esteve a marimbar-se para estes colegas... E quanto ao desaparecimento das disciplinas? Alguém se interrogou sobre a validade destas matérias, qual o seu papel na formação integral dos jovens? Alguém ainda se lembra de Educação Visual?...
Orlando de Carvalho (...não sou professor)
- (...) desejo fazer uma confissão solene. É verdade, também eu sou culpado. Sim, incluo-me no grupo dos réus responsáveis pelo “estado a que «isto» chegou”, independentemente do conceito que possa atribuir-se ao termo «isto».Resumindo, também eu sou professor. Do 1º ciclo por reforma imposta pelo “eduquês”, primário, por opção de há trinta anos, consubstanciada nos ideais que o republicanismo projectava na instrução popular.Publicitado o meu crime, ouso, humildemente, questionar o leitor identificado como Leonel sobre algumas das suas afirmações, face á minha incapacidade de as tornar inteligíveis. (Confesso, no entanto, que apesar desta minha dificuldade, sou moreno e nada tenho de louro. Nem um simples cabelinho).Para evitar que alguma das aves negras e palradoras que, usualmente, costumam enovelar-se por entre o texto escrito subverta o meu discurso, vou recorrer ao mui tecnológico “copy past”.Então vejamos:Afirma o comentador Leonel:«Falam-se em "parasitas" das educação, apontando Escolas Superiores, Faculdades, Docentes, Editores.»«Aprende-se melhor a nadar na água dentro dela, não a ter aulas teóricas sobre natação, é o que se tenta explicar muitas vezes.»« As ciências da educação, como em qualquer outra área científica emergente, contêm grande valor e grande quantidade de irrelevância ou desinformação.»« faça-se como sempre que se fez, não tenho de pensar tanto»(Sic)Como disse?Ora, meu caro Leonel, não me diga que necessita de uma licenciatura em ciências de educação para escrever esta prosa brilhante?Mas que digo eu? Uma licenciatura? Não pode ser. Às ciências de educação deve corresponder uma licenciatura por ciência…Aliás, meu caro, saberá quantas são essas ditas ciências? Tê-las-á contado? Deveras?Quanto mais descansado eu ficaria sobre as qualidades dos cientistas que tanto velam pela nossa educação, se pudesse esclarecer-me esta dúvida.Três, eu sei, de fonte certa, que integram o elenco, «noções de psicologia, de sociologia, de métodos de avaliação».Mas o Português, sim esta língua banal em que nos expressamos, também faz parte da lista, ou tê-la-á V. Exª esquecido enquanto tanto se empenhou, durante sete anos, «a procurar mais informação sobre todos estes elementos, não apenas sobre as "técnicas pedagógicas"»?(...)
(António Vicente)
- Causa-me alguma perplexidade verificar que "as vozes que vêm da escola" se focalizam em questões técnico-pedagógicas e de índole corporativa e evitam as referências ao que, se bem ajuízo, é essencial e lhes é prévio: a questão da autoridade nas escolas e do que é necessário fazer para a repor.De facto, a escola teve, tem e terá de assegurar duas funções: a instrução e, pelo menos complementar e supletivamente a outras instituições sociais, a educação, entendida como o desenvolvimento de atitudes e comportamentos socialmente desejaveis. o problema é que essas atitudes e comportamentos não são ideologicamente neutros pelo que, nas réplicas do Maio, não admira que a função educativa da escola tenha sido violentemente posta em causa: a escola era "burguesa" e visava "a reprodução/manutenção das estruturas sociais burguesas" e da "ideologia dominante" ou, dito dum modo metafórico embora inócuo dado o meio, a colocação de "another brick in the wall" o que justificava a ordem, irada, "hey, teachers, leave the kids alone".Ora, não é possível instruir sem previamente educar e não é possível educar sem o criterioso recurso a mecanismos de punição/recompensa que pressupõem a autoridade para os aplicar. E foi essa autoridade que os professores foram paulatinamente perdendo: de cedência em cedência, a escola foi-se transformando num mero local anárquico, violento, onde, sem custos, os progenitores depositam os rebentos enquanto fazem pela vida esperando que, sem sobressaltos nem canseiras, atinjam a idade em que não são obrigados a frequentá-la e, nalguns casos, transitem para a universidade.Este estado calamitoso a que a escola chegou requer a reposição da autoridade do professor na sala de aula e da do (inexistente!) director na escola bem como a credibilidade/efectividade das sanções que lhe são inerentes o que obriga, por muito incorrecto que seja, a questionar dois tabus :a obrigatoriedade da ferquência das escolas até aos 16 anos que, para todos os efeitos, impede a expulsão do sistema de todos aqueles que apresentarem incorrigiveis comportamentos desviantes; a gratuitidade do ensino: as pessoas tendem a desvalorizar e a desperdiçar tudo aquilo que lhes não custa nada.
(José Fonseca)
Para quem se interessa por Educação, o texto de Lafforgue sobre a Educação na URSS e na Rússia de hoje é interessantíssimo.Como o nosso caos educativo tem, segundo opiniões muito consensuais, origem na “ditadura” das direcções sindicais e do staff do Ministério, que são identificados com a Esquerda e de facto muito apoiados pela Esquerda política, é curioso ver que a cultura educativa e escolar soviética e hoje russa – considerada, pelos seus resultados, um sucesso consolidado de muitas décadas – apresenta tudo que viola a “cartilha” da esquerda educativa – disciplina, competição entre escolas, autonomia de decisão, diferenciação, apoio à progressão dos melhores alunos, etc., etc.Lafforgue é um grande matemático francês que se demitiu de uma comissão nomeada para rever o ensino francês, quando lá encontrou todos os responsáveis pelo seu descalabro. O site que criou para divulgar o caso. Para acesso directo ao pdf sobre o ensino russo, antes soviético.
(Eduardo Pedrozo)
- Tenho lido um coro de protestos acerca da Ministra da Educação no seu blog, por causa da revisão do ECD. A minha opinião é que pela primeira vez em muitos anos estamos perante um verdadeiro caso de sucesso na Governação. E a oposição neste aspecto devia ter a coragem de o dizer.O tão propalado facto de os professores passarem a ser avaliados pelos pais é uma atoarda lançada para a comunicação social e que os jornalistas, que não fazem o trabalho de casa comeram. Os pais apenas têm que se pronunciar num item acerca dos professores e não irá ser isso que será determinante na sua avaliação.O que está verdadeiramente em causa é que ninguém quer ser avaliado.O ponto mais controverso da revisão do ECD é o facto de se permitir a existência de dois tipos de professores numa escola. Os titulares que têm acesso ao 9º e 10º escalão e os outros. Aqui é que poderão eventualmente vir a criar-se injustiças já que o novo ECD estabelece cotas para os professores titulares, que não poderão ser superiores a determinado número em cada escola.Ora se esse número já estiver preenchido hoje vai ser necessário ou que os professores titulares já no 9º e 10º escalão mudem de escola, se reformem ou morram para que os outros por mais competentes que sejam, possam ter esse privilégio.O que está mal já, que ainda predomina muito o laxismo. Por isso os titulares por muito incompetentes que sejam, nunca ninguém vai ter coragem de os denunciar para os mais aptos ocuparem esses lugares.Já se sabe que se um professor estiver à beira da reforma mesmo que não faça nada todos os outros se vão calar. Isto segundo o princípio bem português, hoje és tu amanhã posso ser eu, ou seja cobardia.Mas por outro lado é sabido que existe um problema de fundo na Função Pública. Os quadros que entram e os quadros que estão no topo da carreira ou dirigentes ganham pouco e os quadros intermédios ganham demais. Para isto mudar é preciso coragem. E a coragem também passa pela avaliação que a Ministra quer implementar.Só gostava era de saber onde andam as palmas da oposição. Ao não aplaudir só está a demonstrar que também está amarrada e ir a reboque dos sindicatos. Há-de chegar o dia em que os sindicatos vão aplaudir (já esteve mais longe) e depois vamos ver o PSD e o PP ao lado de quem?
(Paulo Lopes da Silva)
- (...) Perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele quer ser avaliado. E a resposta é SIM! Claro que sim! Mas qual é o bom profissional que investe na carreira e que quer ter o mesmo Satisfaz automático num relatório para progressão na carreira que aquele que vê o ensino como uma forma de ganhar dinheiro "para os alfinetes"? Qual é o bom profissional que investe muito do seu tempo e da sua energia para querer depois ser "metido no mesmo saco" daquele que pouco ou nada faz??? Qual é o professor digno desse nome que gosta de ganhar o mesmo (ou ainda menos, se estiver num escalão inferior) do que aquele que é bem pior profissional do que ele? Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante para achar que pode existir sem professores? Será este país tão estúpido para achar que a forma de limpar o ensino dos maus profissionais (que existem, claro que sim! E não contem comigo para ser corporativista...) é atacar todos os professores, atribuir-lhes as causas de todos os males da sociedade, desde os meninos que se drogam porque os professores faltam (ouvi isto da boca do senhor Albino, da Confederação de Pais) até aos de falta de produtividade do país? Será este país tão estúpido e tão arrogante que entenda poder não reconhecer as horas que os professores dedicam a preparar as aulas, a pensar em como “agarrar” aquele aluno que anda meio perdido, a telefonar vezes sem conta para os pais do outro miúdo que anda completamente desorientado, a gastar dinheiro do seu bolso em materiais de apoio, a levá-los em visitas de estudo a ver museus, teatros, exposições, conhecer coisas que muitos pais, confortáveis nos seus fins de semana de centro comercial, não estão para fazer? Já agora, para os que dizem que os professores só querem passear, pensem que o podemos fazer com os nossos filhos e amigos, sem ter que passar 12 horas fora de casa de um dia que, passado na escola, seria de muitas menos e sem a responsabilidade de tomar conta dos filhos dos outros. Será este país tão estúpido e tão arrogante que esqueça que são os professores, como é, obviamente, sua função e responsabilidade, a dar a todos os alunos o melhor das ferramentas de que dispõem, sejam elas científicas, intelectuais, sociais, de cidadania e de tudo o mais que possam imaginar e entender necessárias?Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante que não perceba que sem os professores que tentam tirar os miúdos do miserabilismo intelectual em que muitos vivem (independentemente da classe social) teremos cada vez mais uma escola de pobrezinhos onde, para não haver insucesso, devo partir daquilo que "a criança" é e sabe, descer ao encontro dos seus interesses, por causa do insucesso, etc,etc,etc... (como isto dá jeito aos donos dos colégios...)? Assim, ajudamos os “pobrezinhos” a cumprirem o seu (pré)desígnio na vida... Será este país tão estúpido que não perceba que sem os professores que se estão a borrifar para estes determinismos sociais e que tanto trabalham, se for essa a vontade do aluno, para ser médico o filho do cozinheiro como o do deputado, teremos cada vez mais o país da elite, a quem tudo é possível, e o dos outros, fechados e condenados ao atraso e a perpetuarem o meio onde tiveram o azar de nascer? Será este país de "professores de bancada" (pois, tal como no futebol, todos parecem saber mais do que é ser professor do que nós, pelos vistos os mais incompetentes de todos os profissionais deste país!) capaz de parar de gastar o tempo (tempo este em que muitos se poderiam dedicar, digamos, a educar os próprios filhos, a ir à escola saber deles, a dedicar-lhes uns minutos, sei lá...!) a fazer analogias entre as empresas privadas e os professores? Será este país tão estúpido e tão cego que não veja, nas empresas, as políticas de incentivo, os prémios de produtividade, os seminários de motivação, os telemóveis de serviço, os computadores da empresa para trabalhar em casa e, sem ir ao mais óbvio, os ordenados? Será este país tão estúpido que não entenda que os professores são profissionais qualificados, não têm o 9º ano nem tão só o 12º? Portanto, sejam pelos menos honestos (se não conseguirem ser inteligentes!) nas comparações.Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante? Quantos de vós não devem muito do que são a professores que tiveram? Ou os vossos filhos?Será o meu país tão cego e tão arrogante???Assim, perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele que ser avaliado... E ele responde-vos que SIM! O que não queremos mais é ser constantemente humilhados, culpabilizados, achincalhados, denegridos, tratados sem a consideração, o respeito e a inteligência que a minha profissão e o meu profissionalismo me concedem o direito de exigir!E, citando Almada Negreiros:UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!... cada geração tem o Dantas que merece! Mas também tem nas suas mãos o poder de o reduzir à sua insignificância... Até porque do Dantas, o verdadeiro, o Júlio, não fora o te stemunho/desabafo do Almada Negreiros, e já se teria dissolvido na poeira dos tempos...
- Sou professor do ensino primário (do 1º ciclo na terminologia actual), tenho 49 anos de idade e cerca de 28 de serviço (20 dos quais na educação especial). Ao longo da minha vida profissional sempre tentei estudar e aprender. Antes da "formação em serviço" fornecida pelo ministério paguei do meu, na altura, magro salário muitas inscrições em cursos e seminários. Em 1988 tive a oportunidade ir estudar a tempo inteiro durante 2 anos (DESE em Educação Especial na ESE do Porto) e em 1998 fiz um mestrado em educação na Universidade do Minho. Sempre defendi a avaliação das escolas e dos professores. Mas, neste momento, sinto-me ofendido pela ministra.(...) É muito mais fácil avaliar os professores do que avaliar as escolas. Mas, uma boa avaliação das escolas, com medidas de acompanhamento para as escolas com problemas, como fazem os ingleses, permitiria melhorias na qualidade da escola. Temo bem que avaliando-se apenas os professores o único resultado que se conseguirá é, no curto prazo, travar as progressões automáticas e contribuir para a redução do défice. Devo dizer que não sou simpatizante do PSD, concordei com algumas das medidas do Dr. David Justino e discordei de outras, mas tenho de reconhecer as medidas eram articuladas e tinham uma lógica. Voltando à actual ministra continuo sem perceber a atitude dos sindicatos (talvez seja por isso que deixei de ser sócio há mais de 10 anos). Esta equipa ministerial tem mostrado uma incompetência escandalosa na implementação de algumas medidas e, sobre isso, os sindicatos nada dizem. Passo a citar apenas alguns exemplos:- Foi criado um quadro de professores de educação especial. Até agora estes professores eram colocados de acordo com o nível de ensino correspondente à sua formação inicial. No novo quadro são criados 3 grupos de docência correspondentes a diferentes tipos de deficiência dos alunos. A estes lugares podem concorrer professores de qualquer grau de ensino (desde o jardim de infância ao secundário), desde que sejam especializados. Esta especialização é conferida pela frequência de uma pós graduação de cerca de 300 horas. Ou seja, como não se diferenciaram as vagas por níveis de ensino, pode acontecer que num agrupamento sejam colocadas apenas educadoras de infância que terão de apoiar alunos até ao 3º ciclo. Noutro podem ter sido colocados só professores de 3º ciclo, que terão de apoiar todos os alunos, incluindo crianças de jardim de infância e, eventualmente, até bebés. Devo esclarecer que não estou minimamente preocupado com os professores. Estou preocupado com as crianças, sobretudo as mais pequenas porque esses anos são fundamentais para o seu desenvolvimento. Na educação especial quanto mais cedo começa uma intervenção de qualidade mais hipóteses há de minorar os problemas da criança. - Neste "famoso" concurso os professores só poderiam concorrer se tivessem a especialização, mas a nota dessa especialização não contava para a sua graduação profissional. A experiência profissional em educação especial também não. Aos professores era perguntado se possuíam pelo menos 365 dias de serviço na educação especial. Assim, um professor com 20 anos de serviço total que tem apenas um ano de experiência em educação especial fica à frente de outro com 19 anos e 364 dias de serviço total que tem 12 anos de experiência em educação especial. - Para "completar o ramalhete" o despacho que regulamentava as habilitações foi acrescentado 3 vezes, duas delas durante o próprio concurso! - No final do ano lectivo anterior foi alterado à pressa o despacho 105 (não sei o ano), que regulamentava a educação especial, e foi substituído pelo Despacho n.º 10856/2005 que poucas alterações introduziu. Uma dessas alterações passou a ser a obrigatoriedade de os professores realizarem, em Maio, um relatório individual sobre cada aluno. Esse relatório seria validado pelas Equipas de Coordenação (ECAE) e enviado às direcções regionais que, por sua vez, o enviariam para o ministério. Foi definido um modelo de relatório e criado um formulário em Microsoft Word para o seu preenchimento. Pelo menos tomaram uma decisão sensata: o relatório seria enviado em formato electrónico. - No presente ano lectivo comecei, em devido tempo, a perguntar se haveria alterações ao modelo do relatório. Foi-me dito que aguardasse. Há cerca de duas semanas finalmente chegou o novo modelo. Agora é feito on-line (é o choque tecnológico). Até aqui tudo bem, o problema é que atribuíram a mesma password aos professores de dois concelhos (abrangido pela mesma ECAE) e o nome de utilizador é o da ECAE. Ou seja, qualquer professor destes concelhos, ao aceder ao sistema tem acesso não só ao nome completo das crianças, como também ao que os colegas escreveram. Estou com um problema de consciência grave: tenho de fazer os relatórios mas, simultaneamente, queria proteger os meus alunos e as suas famílias. Os pais e as crianças com problemas não têm direitos? Podia continuar a citar um conjunto de incidentes em que há ordens e contra ordens. A ministra ou um dos seus secretários de estado reúnem com os conselhos executivos e dão uma ordem. As coisas funcionam mal no terreno, há contra ordem. Desde há muitos anos que não se sentia uma tão grande instabilidade nas escolas. Felizmente decidi deixar a educação especial e voltar ao ensino regular, e digo felizmente apesar de ir ganhar menos e ter mais 5 horas de aulas por semana. A propósito de horários, a ministra voltou à ideia de, "nos agrupamentos em que não haja outros meios", nos pôr a servir de babysiter aos meninos após as 5 horas diárias de aulas. Quando é que preparo aulas e corrijo trabalhos? Nunca me preocupei se excedia as 35 horas semanais mas, este ano, se me transformarem em babysiter passarei a ter cuidado para não as exceder.
- Como professor: uma grande parte de nós concordam com muito do que a Sra. ministra está a tentar alterar. No entanto, achamos que não era por aí que começávamos. Conclui-se rapidamente que nem o Ministério nem os sindicatos fazem ideia do que é a vida na sala de aula e na escola. Qualquer professor do activo sabe o que o ministério, em primeiro lugar devia alterar (pequenas medidas sem implicações financeiras) para que a escola fosse um local melhor e com resultados imediatos (perdoe-me a presunção). Por exemplo: sou director de turma há vários anos e, apesar dos esforços constantes, verifico que os pais, como muitos têm dito, nunca foram à escola (60 a 70%), e os que aparecem são dos alunos com melhores prestações..... Se todas as prestações sociais (abono de família, subsidio de desemprego e todos os outros) dependessem de uma informação do DT , concerteza que teríamos os pais na escola e isso era decisivo.
- A professora Ana Teresa Mendes da Silva começa por assumir que há professores bons (que gostariam de ser avaliados) e maus (os tais que ganham o mesmo que os outros a troco de muito pouco), mas depois desata a dizer que os professores (num todo) é que preenchem uma série de necessidades dos alunos que os seus pais (que considera também num todo) supostamente não satisfazem.Gostaria que tivesse a ideia que os pais dos alunos sabem perfeitamente que há uns professores e os outros, assim como também eles próprios podem ser cuidadosos e esmerados ou desleixados e incompetentes. Gostaria de lhe descrever um professor que conheço por ser o de um filho meu: perto do topo da sua carreira e com fama de ser um bom professor, em dois anos não fez uma visita de estudo sequer; vai repetidamente ao médico e ao dentista (digamos semana sim, semana não, dentro do seu horário lectivo) e, além de faltar com frequência às 6ª feiras, só neste ano lectivo faltou ainda 2 períodos de 15 dias. Como tarefas não lectivas, e uma vez que a escola, por falta de instalações não dispõe de prolongamento de horário, foi incumbido de periodicamente colaborar no apoio ao refeitório da escola (1º ciclo) mas não o faz alegadamente porque o cheiro da comida lhe ficava nos cabelos. Chega a dizer aos alunos que está farto deles. Claro que este professor só pode ter medo de ser avaliado não só pelos pais dos alunos como também pela sua assiduidade e pelo seu projecto de trabalho.Há dias li no Público um jornalista a indignar-se com a ideia de os pais participarem na avaliação dos professores, alegando que seria bonito por exemplo as famílias dos doentes avaliarem os médicos. Acontece que essa prática por acaso está prevista e começa a ser usada em algumas instituições de saúde. A avaliação da satisfação dos utilizadores dos serviços (que em Medicina não são só os doentes mas também os seus cuidadores) é uma componente essencial da avaliação da qualidade dos serviços, de saúde e não só. Não cabe na cabeça de ninguém que um médico (ou um professor) seja muito bom mas afinal a maioria dos utentes (ou dos pais dos alunos) não goste dele.Ainda quanto às queixas de as promoções até ao topo da carreira não serem para todos, essa é a ordem natural das coisas: quantos funcionários de uma empresa chegam aos seus quadros superiores? Mesmo na função pública e na área em que estou, para um médico chegar ao grau de chefe de serviço tem de concorrer a um concurso com vagas limitadas que podem inclusive não ser ocupadas se os médicos candidatos não atingirem o nível desejado. São provas duras a que muitos nem sequer se submetem e, de entre os que se submetem, alguns ficam forçosamente pelo caminho.As reacções em bloco desprestigiam os bons professores que se deviam querer distinguir dos outros. Sabemos que frequentemente trabalham em condições muito desfavoráveis prosseguindo por vezes objectivos mais ambiciosos que os que lhe seriam estritamente exigíveis. Todos tivemos professores desses e sabemos reconhecê-los. O que não é admissível é que as más condições de trabalho sirvam como desculpa para os que não cumprem, não se esforçam ou, simplesmente, não têm capacidade para mais mas querem, de qualquer forma, chegar tão longe como os outros.
- Sem o brado mediático do encerramento de qualquer fábrica no litoral, uma verdadeira revolução está a ser operada no mundo rural. O distrito de Bragança vai perder este mês 225 escolas.Retirada qualquer tentativa de problematizar o tema, duas simples conclusões, as aldeias nunca mais vão ser as mesmas e encerra também uma das últimas esperanças para o mundo rural!
- Ao longo da vida tenho deparado resultados semelhantes aos observados em relação aos professores.Será que tudo se pode resumir na frase: o sindicalismo de reivindicação salarial (ou equivalente) teve demasiado sucesso?Será que se pode dizer que é justamente o sucesso do sindicalismo que matas as “conquistas alcançadas”.Ou será que os alvos em que o sindicalismo se centra são inapropriados?Ou, ainda, será que o sindicalismo, no que respeita aos professores, já deu o que tinha a dar? Será de se passar a algum tipo de nova fase?Os professores não devem ser mercenários do ensino: se receberem, ensinam, não importa o quê ou como, ou em que condições (excluindo as salariais).Diria que falta ainda uma discussão à volta da dicotomia autoridade/formas de a exercer para a tornar efectiva ou andamos todos a cuspir para o ar. De forma mais prosaica diria: desculpem lá, meus amigos, mas em matéria de disciplina o professor tem sempre razão o pouco que sobra são excepções que confirmam a regra.
- Hoje na versão em papel do Público o Ministério da Educação publica aquilo a que chama de edital. Este edital publicita o "Enriquecimento Curricular para o 1º ciclo" e o "plano da matemática para os 2º e 3º ciclos". Normalmente são publicados na "zona" dos classificados, mas esta é uma publicidade paga. Não seria a primeira vez é certo mas o que me pasma é o facto de o edital interessar apenas às escolas públicas. Ao que sei o ME possui hoje mais do que nunca de linhas próprias de comunicação com as escolas e mesmo com os executivos. Qual a necessidade de publicitar uma medida destas? Uma simples circular como tantas outras (com ordens vinculativas) não seria suficiente? É apenas publicidade e enganosa. É apenas mais uma evidencia da forma como o ME usa a comunicação social. Usa-a para vincular uma imagem distorcida das suas politicas educativas. Hoje como nunca o assunto "professores" vende mais que o assunto "escola" os senhores professores estão na capa do Expresso, nos jornais diários e pasme-se até nas revistas cor-de-rosa. Pena é que todos falam de bancada e sem grande ponderação. Apenas e só por terem andado na escola e recordarem este ou aquele docente acham que sabem como corrigir o sistema. Será demasiado tarde quando se perceber que estas politicas não ajudam os professores a serem melhores, pelo contrário. Que não melhoram o sistema, pelo contrário. Na verdade não existe uma verdadeira politica educativa ou existindo está orientadada claramente pelas necessidades de conter a evolução da massa salarial e o seu peso no orçamento.As politicas educativas deste governo explicam-se em poucas linhas:Não há dinheiro no mealheiro (facto) A carreira dos docentes implica um aumento da massa salarial exponencial tendo em conta a actual carreira baseada na experiência (ou como dizem antiguidade); O actual peso da massa salarial no orçamento da educação é de cerca 93% ( dados da OCDE já que o ME nunca mencionou os seus próprios números) e cerca de 58% das despesas fixas do estado. Melhorar os índices de escolaridade (ainda que artificialmente) de modo a tornar mais atractivo o investimento no nosso país.Para qualquer individuo que acompanhe a actualidade compreende que este é um "Estado à Rasca" (não rasca - embora também) e que a forma mais rápida e eficaz de alcançar o equilíbrio financeiro será actuar onde as medidas surtam maior efeito neste balanço.Estamos assim perante uma necessidade isto eu compreendo embora como professor não me agrade. Qualquer um compreende desde que lhe expliquem. O que eu não entendo é que se vire toda uma sociedade contra os professores e se procure encapotar medidas económicas como educativas. Nenhuma das medidas até agora tomadas irão melhorar os resultados dos alunos e têm contribuído para a degradação das condições de trabalho dos professores e isto tem consequências.O que agrava a situação é justamente o facto de as condições de trabalho dos docentes se virem a degradar de alguns anos a esta parte. Os sindicatos devem exigir do ME condições de trabalho para os docentes e saírem do caminho relativamente às politicas educativas de modo a não serem responsabilizados pelas mesmas como hoje acontece. Devem exigir, por exemplo, que todo o tempo passado na escola seja contabilizado ou como componente lectiva ou como componente não lectivas (actualmente um professor passa cerca de duas horas na escola que não são contabilizadas - são os chamados intervalos cuja necessidade não pode ser colocada em causa), para além de uma generalizada má gestão de recursos evidente nas escolas. Pode parecer mesquinho mas o ME cortou em 5min as aulas e pôs os professores a trabalhar mais dois tempos (outras duas horas) de borla. O tempo é um aspecto importante nesta profissão. Os professores devem exigir condições de trabalho de modo a concretizarem as medidas do ministério e não passar a vida a contestar essas mesmas politicas.Eu sou professor e faço o que me mandam apenas quero condições para o fazer. A responsabilização dos alunos com consequências claras devem também ser implementadas. Não faz sentido nenhum não partilhar responsabilidades. As escolas não podem continuar a ser mais um braço do polvo do Estado Social(ista). A escola deve afirmar-se e ter à sua volta os meios e recursos para tal e não o contrario ao estar ao serviço de politicas sociais. Como cidadão estou preocupado com o rumo da educação (pública) e a forma leviana como este assunto tem sido tratado pela comunicação social e por muitos dos fazedores de opiniões. Adivinha-se o crescimento do ensino privado mas sobretudo o aparecimento de Escolas sem parelismo pedagógico com o ensino oficial mas que se afirmarão pela excelência das metodologias (e da capacidade de financiamento dos papás).
- Por causa das trapalhadas que o leitor Bártolo descreve, na definição das qualificações para o ensino especial, a minha mulher, que se dedica a esse tipo de ensino há muitos anos, que acaba de ganhar um concurso municipal por um projecto que apresentou para a recuperação de crianças com dificuldades especiais na sua àrea de escola, que tem um mestrado em Ciências de Educação e também uma dessas pós-graduações “rápidas” em ensino especial, que tem já um total de 23 anos de serviço, a minha mulher baralhou-se no preenchimento das suas qualificações no boletim de concurso e foi excluída...!!! Para o não é bem possível que fique no desemprego!
- Pergunto-me se vozes vindas das escolas pertencem sempre aos professores. Eu sou aluno do último ano do secundário numa escola norueguesa – uma experiência de um ano, após 11 anos de escola em Portugal – e sou filho de uma professora de matemática do 2º ciclo que sente a sua profissão a 100% e a traz muitas vezes para casa, discutindo as novas reformas e as que estão por fazer, os casos pessoais de alunos que precisam de ajuda, procurando sempre novas ideias para pôr em prática e para tentar catalisar os interesses dos estudantes para a matemática – utilizando, para além dos livros, de jogos, truques de magia, representacões teatrais, etc. Considero que tenho assim uma perspectiva singular sobre a educação em Portugal, especialmente em comparação com a Noruega (que é, afinal, o 1º país do ranking da ONU), e é por isso que escrevo – e porque sou também uma voz dentro da escola.Já li aí que a obrigatoriedade do ensino faz com que alunos "incorrigíveis" tenham que permanecer na escola até aos 16 anos; mas eles não são "incorrigíveis". Uma diferença substancial entre Portugal e a Noruega, é verdade, é que aqui 98% da população pertence à classe média, o que significa geralmente que tem boas condições de estudo em casa. As condições em que o estudante vive, os pais, o ambiente familiar, são extremamente importantes para a educação de um aluno - a educa ção não passa simplesmente pelos programas educativos e pelos professores, mas por um desenvolvimento social a todos os níveis. Ainda assim é mais que provável que Saramago tenha razão quando diz que ler e gostar não é para todos. E gostar de matemática também não é para todos. E é difícil mudar alunos que, por uma razão ou outra, foram "desviados". Mas é possível, e é dever de todo o professor acreditar nisso. Toda a criança e adolescente tem ou deve ter o direito de estudar e de ter professores que acreditem nele, custe o que custar. Nem tudo é perfeito na Noruega. Durante os primeiros 10 anos de escolaridade, todos os alunos passam, independentemente das notas. É fonte de uma certa preguiça – aos 14 anos eu estudava muito mais que o meu irmão de acolhimento que tem precisamente essa idade, que apesar de tudo tem boas notas. Toda a gente da minha turma estudava muito mais. Mas apesar de tudo não se ouvem muitas críticas por aqui. É assim que é. E essa é uma diferença fundamental entre os dois sistemas de ensino: em Portugal as reformas, aqui ou ali, chegam demasiadas vezes. Imaginem o dinheiro que se pouparia em manuais escolares se ainda púdessemos usufruir dos de há dez, quinze anos anos atrás (por exemplo, os alunos podiam vender os livros mais baratos em segunda mão, como aqui na Noruega) – mas não, os programas estão sempre a mudar, recuam e depois voltam a ter o mesmo conteúdo. Aparecem provas de afericão de que os alunos ignoram o objectivo, exames para o 9º e 6º anos, os tempos escolares passam de 50 para 45 minutos, mas os blocos de 90 minutos não têm intervalos no meio, os programas são completamente modificados – eu faco parte de um ano de transicão em que tínhamos o horário do ano anterior mas o programa do ano seguinte. Em Portugal tudo está em perfeita mutação. Não existem, pelo mundo fora, sistemas de educação perfeitos. Existem sistemas de educação que dão os seus frutos após algum tempo, que precisam de aprender com os erros e que se vão refinando. Eu senti-me, muitas vezes, genuinamente confuso com estas mudancas abruptas na educacão em Portugal. Por fim, realço outro pormenor: na Noruega as escolas têm muito mais independência em relação ao Estado, por exemplo no que respeita à capacidade de decidir sobre o pessoal docente. De despedir e contratar. Em Portugal os professores são colocados. Nos milhares de professores desempregados existem muitos com mais qualidade dos que estão colocados. Não existe um sistema de avaliação eficaz dos professores; eles entram com a ajuda da nota do estágio, por exemplo, que depende muito do supervisor que arranjaram. E o outro factor que conta é a idade e o tempo de ensino. O que deixa os jovens no desemprego. Esse não é o maior problema para os estudantes – o mais problemático é que alguns deles são melhores dos que os que estão na escola. Porque na escola existem muitos professores "piores do que estudantes", que muitas vezes faltam às aulas e que fazem pouco mais do que recitar a matéria. Mas também existem muitos que gostam do que fazem, e que se esforcam pelos seus alunos – e esses, acredito, querem ser avaliados, querem a sua própria avaliacão. Podia escrever mais, mas talvez já tenha dito demais, por isso concluo apenas que ser professor não é fácil, e não é aceitar apenas ter alunos que estudam muito e não têm problemas, mas aceitá-los a todos.
- Todos sabemos que a escola não vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com níveis muito baixos de escolaridade, não conseguindo adquirir competências mínimas, indispensáveis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualificação, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos índices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na última década, Portugal tem feito um enorme investimento público em educação. À conta disso, Portugal é o país da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em salários de professores, e onde os rácios de aluno por professor são os mais favoráveis da União Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso não acontece é porque o problema é muito mais do que uma questão de meios. Há muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem à responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, já não serve. Pelo contrário, num país onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa pública, que na área de educação se deixasse tudo como está, isto é, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gestão, racionalização e optimização de meios e recursos.Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do ministério de revisão do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como é óbvio, os professores não se podem colocar à parte destes problemas, muito menos fazendo-se de vítimas.Para além da espuma que tem ressaltado da comunicação social, nomeadamente na questão da avaliação dos professores pelos pais e noutras questões técnicas passíveis de alteração mediante negociação com os sindicatos, interessa-me discutir a questão do princípio de avaliação dos professores. Devem ou não os professores ser avaliados? Devem ou não ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou não haver consequências de uma avaliação?Não querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situação actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente não serve. Em primeiro lugar porque é injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque não assenta em nenhuma lógica de resultados e de objectivos, não estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque é economicamente incompreensível, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma automática, ao topo da carreira.Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avaliação dos seus intervenientes. É assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discriminação entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Depois de entrar na carreira é um descanso. Para alguns, a segurança de um emprego para a vida e a certeza de uma promoção automática, são as únicas coisas que os prendem à profissão. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. Até os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, é urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser credível e isso só é compatível com uma cultura de qualidade e exigência para todos, inclusive para os professores. Porque a escola pública existe por causa dos alunos, é neles que devemos centrar as nossas atenções, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
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