Coisas da Educação

O Blog onde se pode falar abertamente sobre temas de educação. Não é obrigatório dizer mal do Governo, mas se tiverem que dizer mal, não se inibam... se, porventura conseguirem encontrar uma boa razão para dizer bem... também se arranja um cantinho para isso. Diremos o que nos vai na alma... ainda qua a alma nos doa... pode ser que assim... deixe de nos doer. Para além disso, tentaremos mostrar o que por aí se vai dizendo e escrevendo sobre educação. Não deixem de comentar...

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Localização: Torres Vedras, Portugal

sábado, junho 24, 2006

Que Educação?


De um dia para o outro e como que por milagre, Portugal acordou para uma realidade que, embora fosse escandalosamente evidente, ninguém queria ver e cuja solução foi passando ao lado de todas as políticas programáticas dos vários governos que se foram substituindo nas cadeiras do poder. Veio esta Senhora Ministra colocar o dedo numa das feridas existentes no "mundo ingovernável" da Educação e todo a gente passou a debitar ideias e palpites, os mais sábios ou descabidos que imaginar se podem..Cá por mim e por este andar, considero ser difícil chegar a bom porto, porque o mal é endémico, com raízes muito fundas e de proveniência variadíssima. Começa por ser uma questão que tem a ver com a idiossincrasia do povo português que tende a ver tudo pela rama e a não aprofundar a razão das coisas. De pouco serve discutir agora se os pais vão participar na avaliação dos Professores porque o cerne da questão não é esse. De nada servem as medidas avulsas que agora se pretendem para a Matemática, porque a solução não passa por paliativos. É um problema de falta de educação, no sentido mais abrangente do termo, e a todos os níveis - pais e alunos, alguns Professores e o próprio Ministério que recebe esse nome.. E, por assim ser, só eliminando as causas da tragédia educativa é que poderemos obter resultados diferentes e condizentes com os interesses de todos os intervenientes que, de facto, são os habitantes deste país. Todos sem excepção.Não há educação para a aprendizagem no seio de muitas famílias que vivem em condições degradantes e, devido a isso, as crianças que colocam nas escolas reflectem toda uma série de carências materiais, psíquicas e afectivas que confrangem. São alunos desmotivados, sem perspectivas, ao "Deus dará", que, no meio escolar, exteriorizam comportamentos perfeitamente desajustados com as normas estatuídas, constituindo-se como perturbadores sistemáticos das regras de sã convivência nas aulas, com prejuízos reais para si e para os colegas que, perante o seu comportamento indisciplinado, não conseguem o mínimo de atenção em ordem ao equilíbrio necessário que deve existir nos binómios de relação professor/aluno e ensino/aprendizagem. Faltando-lhes essa base social de matriz familiar, também não encontram qualquer tipo de motivação para modificarem comportamentos de modo a se ajustarem aos parâmetros da Escola. São um problema real em muitas escolas e bastam alguns desses alunos em cada turma para o clima se alterar profundamente, com a indisciplina a reinar e a sobrepor-se a tudo o mais, como se viu na reportagem que a RTP transmitiu há algum tempo.
Acresce que, numa tentativa de sociabilização teoricamente desejável mas desastrada na prática, se optou por organizar turmas heterogéneas, misturando os bons alunos com os médios, os sofríveis e os que nada querem. Estes não deixam dar as aulas e os demais acabam por ser as vítimas desse procedimento politicamente correcto. Não entendo que se trate de discriminação, mas penso que as turmas deveriam ser formadas a pensar no bem dos alunos, a partir de uma homogeneidade de objectivos, de modo a ninguém se sentir prejudicado. Esses tais que se encontram desenraizados no ambiente escolar deveriam ter programas próprios mais virados para actividades que lhes fossem atractivas e, só na medida do possível, teriam de aprender uns quantos conteúdos de cultura geral e mais de acordo com os seus interesses, incluindo-os em turmas especiais onde pudessem compartilhar anseios e experiências próprias e sempre virados para uma actividade profissional.As escolas, por sua vez, nada fazem, ou melhor, cumprem as ordens que lhes chegam do Ministério. Um ministério que se transformou em monstro, qual hidra de sete cabeças, pois aquilo é o reino da educação nula. Logo a seguir ao 25/4/74, as forças ditas de esquerda tomaram-no de assalto e impuseram a sua lei, começando por destruir todas as bases de ordem e disciplina que havia nas escolas. A começar no saneamento de todos os Reitores e Directores de Liceus e Escolas. Era importante impor a desordem e a confusão para poderem reinar a seu bel-prazer, em todos os espaços escolares na maior das impunidades. As escolas caíram nas mãos de muitos oportunistas, mais ou menos ignorantes da gestão escolar, e o resultado foi a degradação das escolas, com a ajuda propositada do sindicato de professores a tomar medidas nada consentâneas com o maior bem dos alunos. Como se explica que nesse ministério trabalhem, em comissão de serviço, centenas de professores que nunca deram aulas ou que, tendo iniciado a carreira docente, tudo fizeram para a abandonar em troca duma assessoria ministerial? Que experiência e conhecimentos práticos têm eles para poderem legislar sobre assuntos que, na prática, nunca experimentaram?As Escolas terão capacidade e autonomia para resolver todos os problemas que se deparam no dia-a-dia? E os Professores? Eu sei que os há incompetentes, absentistas e nada vocacionados para a profissão. Mas esses são uma minoria e a degradação do ensino só em pequeníssima percentagem lhes poderá ser atribuída porque, na generalidade, são competentes e dedicados. O que não podem é resolver situações que extravasam as suas competência e atribuições. Como é possível controlar indivíduos sem motivações que faltam habitualmente e sabem que essas faltas para nada contam. Que despautério é esse de aprovar alunos cujo número de faltas é elevado e com conhecimentos quase nulos? Tudo isto são coordenadas do mesmo problema que continuará insolúvel se elas não forem eliminadas.Em muitas famílias é que está o maior problema, um problema que tem a ver com a falta de sociabilização e a ausência de normas de convivência social. E isso porque se varreram da sociedade princípios normativos e, sobretudo, os valores morais e religiosos tradicionais que eram sustentáculo da vida comunitária.

Virgílio do Vale
Professor Aposentado da Escola EB 2.3 de Moreira
in Jornal Maia Hoje edição de 23/06/06