Quanto vale um/cada professor?
O conhecimento que a maior parte dos EE tem dos professores é mediado pelos seus educandos. Diz a ministra ser isto o bastante para que eles possam avaliar a relação pedagógica dos docentes com os seus filhos. Tal, no entanto, não é assim.
Quanto vale um/cada professor? Nos dias de hoje, por muito que valha, vale certamente muito pouco. Não fosse o desemprego que grassa no país e, certamente, muita gente abandonaria a profissão, por se sentir desrespeitada e desvalorizada. Tendo esse desrespeito e essa desvalorização, por parte de governantes e da sociedade em geral, e o consequente desencanto da classe docente múltiplas facetas, referir-me-ei, neste artigo, apenas à tão falada avaliação dos professores pelos encarregados de educação (EE). Quero deixar claras duas notas prévias: considero importante a avaliação dos professores (mas não nestes moldes), tal como considero fundamental a colaboração entre os pais e os professores, entre a família e a escola.1. O conhecimento que cada EE tem do(s) professor(es) do(s) seu(s) educando(s)- Quantos EE vão à escola durante o ano lectivo?Uma pequena percentagem.- Quantos EE conhecem os professores dos seus educandos?Uma percentagem ainda menor. A partir do 2.º ciclo, os poucos EE que vão à escola contactam apenas com o director de turma (DT).Conclusão: O conhecimento que a maior parte dos EE tem dos professores é mediado pelos seus educandos. Diz a ministra ser isto o bastante para que eles possam avaliar a relação pedagógica dos docentes com os seus filhos. Tal, no entanto, não é assim.Perrenoud (1995) atribui aos alunos a designação de go between, traduzida por Villas-Boas (2001) por "vaivém", na medida em que eles, voluntária ou involuntariamente, colocam a escola e a família em contínua comunicação. O aluno, afirma Perrenoud, intervém nessa comunicação de forma selectiva e activa. A selecção vê-se, por exemplo, nos "esquecimentos" da entrega de mensagens ou testes para os EE assinarem. O aspecto voluntariamente activo dessa comunicação é evidente, entre outras situações, na distorção na narração dos acontecimentos que, frequentemente, acompanha a entrega das ditas mensagens. Exemplo: o EE é informado, através da caderneta, de que o seu educando respondeu de forma agressiva e com palavras pejorativas a uma advertência do professor; o aluno, choroso, explica ao pai que o professor "pega" continuamente com ele e só o repreende a ele, quando afinal a culpa tinha sido do colega do lado.2. Avaliação - tarefa nobre e exigente, que requer conhecimentos e competências- Que conhecimentos têm os EE para avaliarem os professores?Para realizarem tarefas de avaliação, os professores tiveram de estudar para adquirirem conhecimentos e competências nesse domínio. A falta de conhecimentos para esta tarefa não é característica apenas de pessoas com poucos estudos, pois não é qualquer licenciatura que confere tal aptidão.- Que objectividade se pode esperar?Não será antes de prever que, para muitos EE, essa possibilidade seja vista como uma forma de "melhorar" os resultados escolares do seu educando ou de exercer vingança em caso de insucesso?3. Invertendo o problema - Quem avalia os pais, nomeadamente os que não acompanham nunca a vida escolar dos filhos, que não lhes incentivam respeito pela escola e pela vida escolar? Só dois exemplos:- Raramente (para não dizer nunca) se consegue encontrar uma aula em que todos os alunos tenham trazido de casa todo o material necessário e em que todos tenham feito os TPC (única tarefa de estudo feita pela maior parte deles), o que pode indiciar desvalorização dos próprios e da família por esse tipo de tarefas essenciais à aprendizagem.- Recentemente o país ficou chocado com uma reportagem sobre a violência dos alunos dentro das salas de aula. Se, de uma forma tão grave, ela não surge generalizadamente em todas as escolas, todas elas vão conhecendo pontualmente acontecimentos igualmente graves e vivem diariamente formas de agressividade e de indisciplina menos graves mas significativas. Esta violência não é apanágio apenas de alunos. Também muitos EE desrespeitam, insultam, ameaçam e agridem professores. Felizmente alguns casos vão começando a ser conhecidos.4. Argumento fornecido pela Ministra da Educação: a avaliação dos professores pelos pais será uma forma de chamar estes à escola.Esta afirmação revela desprezo ou ignorância pelos estudos que referem as causas do afastamento dos EE relativamente à escola, e que serão alvo de um artigo futuro, valendo a pena, para já, destacar a cultura imobilista de classe média da escola, que faz sentirem-se excluídos outros estratos socioculturais minoritários, chegados até ela com o alargamento da escolaridade obrigatória. De forma demagógica, apresenta uma pseudo-solução, passando por cima de um trabalho de caracterização da população e de análise das causas do afastamento das famílias relativamente à escola (a nível nacional, por área geográfica ou habitacional, agrupamento, escola ou outro âmbito), seguido da definição de medidas e de propostas diversificadas de colaboração adequadas ao público-alvo, abrangido em toda a sua diversidade. A colaboração entre a família e a escola é de crucial importância para o sucesso educativo e académico dos jovens e tem sido tema de diversos artigos meus, como por exemplo: Como promover a colaboração entre a família e a escola? (1.ª parte), Como promover a colaboração entre a família e a escola? (2.ª parte) e Quando devem os pais ir à escola? 5. Em jeito de conclusão: Conheço o caso de uma professora que, por ter injustificado a falta dada por uma aluna cuja EE alegava "Adormeceu porque o despertador não tocou." (situação que não acontecia pela primeira vez), recebeu desta a seguinte mensagem, na caderneta: "Quer que lhe mande o despertador para confirmar que não tocou? Trate-se no Magalhães Lemos". Esperemos algum tempo, e muitos professores receberão antes a mensagem "Espere pelo fim do ano e vai ver a avaliação que lhe vou dar."
in Educare 14-6-2006
Bibliografia: Perrenoud, P. (1995). Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar. Porto: Porto Editora.Villas-Boas, M. A. (2001). Escola e família: Uma relação produtiva de aprendizagem em sociedades multiculturais. Lisboa: Escola Superior João de Deus.Zenhas, A. (2006). O papel do director de turma na colaboração escola-família. Porto: Porto Editora.
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