Desmistificando o embuste da Ministra da Educação
Na Madeira, em vez de se intrometer com os professores, deu-se-lhes condições de trabalho. Fez-se um grande investimento na Educação, criando infra-estruturas de apoio, que não existem ainda na grande maioria das escolas do continente. Sem essas condições, não há sucesso escolar.
A senhora Ministra da Educação está a passar para o público a ideia de que a avaliação do Ensino passa quase exclusivamente pela avaliação dos professores, quando, na verdade, o grande responsável pelo insucesso escolar é a série de Ministros da Educação que passaram por este país, com algumas honrosas excepções, talvez, para Roberto Carneiro e Marçal Grilo. Fala-se muito na avaliação dos professores, mas o que se pretende, afinal, é impedi-los de ganhar mais alguns trocos. Pois que só são avaliados aqueles que desejarem progredir na carreira; aqueles que se contentarem com o que recebem podem nunca ser avaliados. Toda a gente, mesmo aqueles que nada percebem de educação, fala da necessidade de avaliar os professores. Esta é, no entanto, uma questão de pura demagogia, pretendendo-se, assim, lançar poeira para os olhos dos portugueses. Táctica velha e demasiado gasta por este Governo, que teima em usá-la. O problema fundamental que está em jogo, para este governo, que apenas parece interessado em cifrões, não é a avaliação dos professores, mas sim dificultar-lhes a subida de escalão, para impedi-los de ganhar mais. Porque o que norteia este Governo é o espírito de lucro da empresa. Os objectivos sociais deixaram de contar. A pergunta é, simplesmente, o que fazer para reduzir a despesa do Estado? Mas o mais grave, abominável mesmo, é a comparação que a senhora ministra faz com alguns países da Europa do Norte, no tocante à Educação. E porque não compara também os vencimentos dos professores portugueses com os desses países? Acho bem que exija produtividade dos professores portugueses, mas dê primeiro, ou pelo menos simultaneamente, as condições de trabalho e os vencimentos de que os nossos colegas da Europa desfrutam!!! E já que a Ministra diz que está a ganhar a opinião pública para a sua causa, vamos lá desmistificar esta situação, comparando-a com o sector privado, tanto ao gosto dos empresários de sucesso e dos governos mal sucedidos. Mais uma vez, “a montanha pariu um rato”. No sector privado, os funcionários, depois de um certo tempo numa empresa, ganham o direito a ter diuturnidades e quanto mais tempo lá estiverem mais diuturnidades têm. Na função pública não há diuturnidades. Os escalões não são nem mais nem menos do que o equivalente às diuturnidades que os funcionários do sector privado auferem. Resta referir que, para terem direito a essas diuturnidades, esses funcionários não precisam de ser avaliados por ninguém, basta que perfaçam um certo número de anos na mesma empresa. Deixem-se de eufemismos de linguagem e digam isto com clareza! Será que a opinião púbica percebeu isto? Da avaliação dos professores não vai resultar a melhoria da educação, dos jovens portugueses! O que é preciso fazer urgentemente, para melhorar o nível da educação em Portugal, é flexibilizar os currículos e os programas de ensino, que são desajustados à realidade dos jovens educandos, dar autoridade aos professores e às escolas, mais e melhores condições de trabalho. E em relação aos alunos? O que dizer de jovens que não querem ir às aulas e permanecem na porta da escola, que batem nos pais e nos professores, que têm uma carga horária horrível, que têm demasiadas disciplinas, que carregam imensos quilos de livros e outros materiais, todos os dias, e que recusam fazê-lo? Isto é só por si antipedagógico, além de poder estar a causar-lhes problemas de saúde. E dos alunos que só estudam na véspera ou no dia dos testes, porque os pais não se interessam por eles? Serão os professores os responsáveis por estas situações, ou serão os políticos, de meia-tigela, que o 25 de Abril inventou?… Será que esta opinião pública, que faz todo este estardalhaço contra os professores e a função pública, sabe que o Governo tenta, por um lado, promover o aumento da natalidade e, por outro, proíbe as mulheres de terem filhos? Será que desconhecem que este pacote abominável, apresentado por uma mulher, proíbe as professoras de engravidar, já que o tempo que elas estiverem com licença de parto não conta como tempo de serviço? Será isto constitucional? Onde estão as mulheres que reclamam por estes e outros direitos? Quando era miúdo, dizia-se que os direitos adquiridos eram sagrados, mas, pelos vistos, hoje retrocedeu-se em relação a esses tempos. Nesse tempo, gostava de jogar às damas e, por vezes, quando o jogo corria mal a algum dos jogadores, este, que não gostava de perder, aproveitava alguma distracção daquele que estava mais bem situado para vencer e alterava as pedras, de forma a poder sair-se vitorioso. Esta questão da avaliação dos professores (para já não falar noutras situações que a seu tempo evocaremos) parece-me um pouco brincadeira de crianças. O que a senhora Ministra pretende fazer é alterar as regras a meio do jogo. Duas notas em relação aos comentários da opinião pública, pelos vistos conquistada pelo “charme” da senhora Ministra. Neste momento, lemos e ouvimos tanta coisa abominável de comentadores sem escrúpulos, a pronunciar-se de uma forma aleivosa contra os docentes. Se não tivesse havido o 25 de Abril de 1974, provavelmente, estariam a cavar batatas. Li, num jornal funchalense, que se dedica quase exclusivamente a fazer oposição ao Governo Regional da Madeira, uma crónica intitulada “Ponto de Ordem”, da autoria de um jornalista que, se pensasse melhor, estava calado e não se metia na questão dos professores, pois que “quem tem telhados de vidro não atira pedras”. Já agora, e se os jornalistas fossem avaliados pelas tiragens dos jornais, ou pelo nível das notícias que dão, ou ainda pela competência dos leitores? Os professores não têm medo da avaliação, pois já são avaliados neste momento! O que os professores querem é que não se brinque com os seus salários e querem ser governados por quem tem competência. Num debate que a SIC leva à cena todas as semanas, José P. Pereira, da sua cátedra, dá palpites sobre todos os aspectos da vida social, política e económica deste país. Os professores e a educação não fugiram à regra. Ele entende que os professores até devem ser avaliados, submetendo-se a exame, pondo em causa a sua competência. A sua malvadez vai ao ponto de ignorar que os professores são licenciados, com quatro anos de curso e mais dois de profissionalização (as pedagógicas). Alguns deles até têm mestrados e doutoramentos, às suas custas, e estão sempre em avaliação, pois frequentam, constantemente, acções de formação, na sua área profissional. Por que é que este senhor e a ministra da Educação não vêem o insucesso pelas licenciaturas fictícias, que os governos andaram, “generosamente”, a promover, a professores primários e que agora estão a leccionar no 2.º, 3.º ciclo e secundário, sem nunca terem entrado numa universidade? O Sr. José Pereira entende que os professores não devem ganhar mais, mas, quando percebeu que a vida era difícil, trocou os seus ideais e o seu partido originário, partiu a coluna, e entrou para o PSD, que lhe dava melhores garantias de ganhar a vida, mais folgadamente. A vida é difícil para todos, até para os professores!… Se o Sr. é um grande cérebro, como dizem, por que é que não ajuda a resolver alguns dos problemas financeiros do país, fazendo com que todos, por igual, declarem devidamente os seus impostos, como, por exemplo, a sua classe, os advogados? Sabe como? Eu vou dar-lhe uma ajuda. Sugerindo ao Governo que faça o mesmo, para a sua classe, como fez para a classe médica. Comparticipando, por muito pouco que seja, nas despesas do utente com os advogados. Além de ser mais uma medida de carácter social, ajudaria a que estes também não fugissem aos impostos. Assim, os clientes exigiriam os recibos dos montantes pagos, para depois receberem a correspondente comparticipação, e os advogados nunca mais declarariam o correspondente ao ordenado mínimo nacional. Assim, lucraria era o Estado e lucraríamos todos. Ou serão apenas os professores e a função pública a terem de pagar a crise? Isto é que seria uma boa sugestão vinda de um cérebro tão brilhante. Para além disto, na mesma ordem de ideias, os advogados também deveriam ser avaliados pelos fins e não apenas pelos meios. Voltando à reforma que esta ministra pretende implementar na educação deste desgraçado país, eu pergunto: se ela não resultar, como é mais do que provável, quem irá assumir as responsabilidades? A ministra não vai ser conm certeza! E provavelmente ainda vai receber uma comenda, daqui a alguns anos, no Dia de Portugal. Prevejo que, mais uma vez, a culpa vai ser dos professores… Ainda em relação a este pacote abominável e atentatório da dignidade dos professores e que a ministra quer fazer lei, eu pergunto aos deputados, da maioria socialista, que já foram professores e representaram sindicatos, se ainda se lembram da questão do totonegócio e da dignidade de Gilberto Madail, que votou contra, mesmo pertencendo à maioria que o defendia, e dos deputados da Madeira, que faltaram a essa sessão recusando-se a votar tal lei? Agora querem implantar, no continente, do reino muito do que já se faz, há anos e com êxito, na Madeira. Aqui, em vez de se intrometer com os professores, deu-se-lhes condições de trabalho. Fez-se um grande investimento na Educação, criando infra-estruturas de apoio, que não existem ainda na grande maioria das escolas do continente. Sem essas condições, não há sucesso escolar. Parece-me sinceramente que, após os Descobrimentos, Portugal andou sempre na rota errada e, com ministros do calibre daqueles que compõem este Governo, nunca mais há-de encon-trá-la.
Por: Emanuel Janes
in Jornal da Madeira
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