A culpa é dos professores...?

Texto notável de António Galrinho, professor dos ensinos Básico e Secundário, em Setúbal.Vale a pena ler até ao fim.
"Portugal é um país habituado a viver em crise. Nos anos setenta e oitenta, em anos de pouca chuva atribuíam-se as culpas à seca; quando havia acentuados aumentos do petróleo encontravam-se as culpas nesse facto.Nos tempos que correm acontecem as duas coisas, mas os políticos decidiram eleger como inimigo público número um a função pública. Descobriu-se agora que a origem dos grandes problemas da nossa sociedade está na função pública quando, afinal, esta se limita a trabalhar dentro das directrizes e das condições que lhe são apresentadas? Porque afinal quem decide são os políticos. Os professores são uma parte especialmente visada nas críticas mais recentes dos políticos. Os governos e os ministros da educação sucedem-se, as reformas também. Aplicam-se e abandonam-se sucessivos modelos de ensino copiados de países económica, social e culturalmente diferentes do nosso. Nesses países as turmas têm menos alunos, as famílias têm mais recursos económicos e os políticos têm mais seriedade. Com índices de sucesso escolar francamente abaixo dos da União Europeia, torna-se fácil atribuir culpas aos professores, não só em relação a esse aspecto, como também às consequências que isso tem em termos futuro na sociedade.
No entanto, o que se tem feito é forjar um sucesso falso, assentando-o na frieza das estatísticas. De facto, em termos percentuais, actualmente transitam de ano muito mais alunos do que sucedia há duas ou três décadas atrás, uma vez que a legislação em vigor leva os professores a fazê-lo sem que os alunos tenham condições para tal.
Os professores têm conhecimentos e capacidades para fazerem melhor do que estão a fazer, basta que lhes seja pedido e lhes sejam dadas condições para tal, assim como aos alunos. Normalmente, quando se mexe nos programas das disciplinas retiram-se ou reduzem-se os conteúdos mais complexos; além disso os professores passam alunos que não deviam passar, porque a legislação assim decide. Deste modo, atingem-se taxas de sucesso falsas nos ensinos básico e secundário, que se reflectem mais tarde em elevadas níveis de abandono nas faculdades e numa deficitária integração no mundo adulto, apesar de fazerem brilharetes quando apresentadas em Bruxelas. Até há pouco tempo, os alunos só podiam transitar de ano com duas negativas, agora com três todos passam.
Mais!!! A legislação prevê que os alunos possam passar com qualquer número de negativas e mesmo sem sequer terem ido à escola. Temos sido governados essencialmente por políticos incompetentes, pouco inteligentes, vaidosos e desconhecedores da realidade, interessados sobretudo em promoverem as suas carreiras pessoais e em abrirem portas a familiares e amigos. Os professores têm formação superior, fazem a sua profissionalizaçãoe têm formação contínua ao longo das suas carreiras, apresentando, em média, habilitações académicas e profissionais superiores às dos políticos. Além disso, na generalidade, fazem do ensino uma carreira profissional exclusiva por toda a vida activa.
Em trinta anos fizeram-se duas dezenas de reformas. As mudanças são tão frequentes que ainda os professores se estão a habituar a uma, logo vem outra. Tantas mudanças são um sinal inequívoco de que quem governa não sabe governar, não sabe o rumo que quer dar ao país.
Há uma dúzia de anos surgiu a Área-Escola. O ministério difundiu com entusiasmo as suas mil e uma virtudes, pensando que esta viria dinamizar as escolas, envolver professores, alunos, comunidade escolar e meio. Nada mais errado. Afinal, aquilo que a Área-Escola pretendia era envolver todos esses elementos em torno de projectos interdisciplinares. Esses projectos sempre existiram e surgiam naturalmente a partir de propostas de alunos, de professores ou do meio, que tinham que ver com circunstâncias de momento, envolvendo actividades de carácter pedagógico e lúdico que muito contribuíam para enriquecer e aproximar os alunos. A partir do momento que se tornou obrigatório e, muitas vezes, com um peso considerável na avaliação, esse tipo de projectos perdeu o encanto que tinha e os alunos passaram a desenvolvê-los contrariados. De repente, surge uma reforma que termina com a tão vantajosa Área-Escola.
Os programas das disciplinas mudam constantemente, os manuais escolares também. Por vezes são mudados programas a meio do ano. Há desajustes entre programas e manuais. Mudam-se métodos de ensino de acordo com modas que, normalmente, trazem mais confusão do que eficácia.
Há uns anos entendeu-se ser pedagogicamente correcto que o número de disciplinas fosse menor, com mais tempos semanais cada uma, deixando de haver disciplinas a funcionar apenas uma vez por semana; recentemente surgiu outra reforma que voltou a fazer funcionar parte das disciplinas apenas uma vez por semana; agora, nos 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico os alunos têm o dobro das disciplinas que tinham antes.
Quando os professores e alunos se estão a habituar a um determinado modo de funcionamento surgem mudanças que, na maior parte das vezes, nada trazem de realmente útil ou vantajoso. Nas últimas duas décadas os políticos destruíram ou fragilizaram importantes sectores produtivos do nosso país. A sociedade modificou-se e tornou-se mais agressiva. Exige-se mais das escolas, porque se percebeu, finalmente, que está aí o motor de arranque duma sociedade. O ensino tornou-se um alvo de pressões de políticos e de associações de pais. No entanto, congelam-se ordenados e progressões na carreira, é retirada autoridade aos professores e diminuem-se as verbas atribuídas às escolas. Muitas são as escolas cujos edifícios se encontram em adiantado estado de degradação, extremamente frios no Inverno, extremamente quentes nos meses de maior calor. Há falta de equipamentos, e de manutenção dos existentes, que permita a correcta leccionação dos conteúdos e consequente aquisição de competências por parte dos alunos.
Apregoa-se a autonomia das escolas. No que respeita ao lado administrativo, essa autonomia joga-se num espaço de actuação extremamente limitado, indo pouco além da definição do horário de funcionamento da papelaria ou do preço das sandes. Em matéria pedagógica e disciplinar, as escolas têm de jogar com aspectos de algum melindre, que deviam estar definidos superiormente, mas que não estão, vá-se lá saber, porquê? De forma abusiva vêm a público insinuações das mais variadas contra os professores dos ensinos básico e secundário. Diz-se que trabalham poucas horas, porque se olha apenas para o horário lectivo; não se olha às horas de reuniões e trabalho de casa para preparação de aulas e correcção detestes e outros elementos de avaliação. Diz-se que os professores têm muito tempo de férias; não se olha ao trabalho que realizam quando os alunos já estão de férias. Além disso, se mesmo assim os professores tiverem mais dias de férias do que os restantes trabalhadores é apenas, porque cumprem com o calendário que lhes é atribuído. Mas não se fala dos muitos que, para terem um bom desempenho profissional, compram computador e se ligam à Internet, compram materiais didácticos, dão materiais a alunos carenciados, arranjam equipamentos degradados ou dão dinheiro a alunos para que possam comer.
Querem que os professores dos ensinos básico e secundário estejam cada vez mais tempo nas escolas, mas não se lhes são dadas condições para isso, ficando por fazer em casa aquilo que melhor se faria lá. No entanto não se fala das situações, essas sim vergonhosas, que acontecem em algumas faculdades, que começam as aulas no final de Outubro ou princípio de Novembro, que em Dezembro já estão de férias do Natal, que em Fevereiro não têm aulas por causa das frequências, que na Páscoa já estão de novo de férias e que terminam as aulas nos primeiros dias de Junho. Não são poucos os professores colocados a mais de cem quilómetros de casa, sem um cêntimo extra por isso, gastando em viagens e estadia metade ou mais do seu ordenado. O stress a que a actividade docente conduz, nos ensinos básico e secundário, leva a que esta seja a profissão que mais procura ajuda de psicólogos e psiquiatras. Hoje, uma parte significativa da população docente recorre regularmente a calmantes, anti-depressivos e atestados médicos como forma de minimizar os problemas de saúde causados pela profissão. A recuperação do desgaste ao longo duma semana, dum mês ou dum ano, torna-se cada vez mais difícil com o avançar da idade; além do desgaste vem, ainda mais cedo, a desmotivação de quem se sente desconsiderado e desaproveitado. A profissão docente devia ser considerada de desgaste rápido ou, pelo menos, de desgaste acentuado. Quem nos governa não deve fazer a mínima ideia do que será dar aulas com sessenta e cinco anos de idade e quarenta ou mais anos de ensino, a crianças, adolescentes e jovens desmotivados, socialmente desintegrados e oriundos de famílias desmembradas e caóticas. Deste modo, além da nossa saúde, a tão falada qualidade de ensino será também afectada significativamente. No fundo, os nossos políticos até nem são assim tão pouco inteligentes. Eles sabem onde residem os problemas e talvez até saibam como se resolvem. Mas isso obriga ao emprego de verbas que eles não querem disponibilizar. Além disso, preferem tomar medidas populistas de modo a garantirem a reeleição nas eleições seguintes. Por isso, tomam-se as medidas que sejam mais do agrado dos pais do que dos professores, por aqueles representarem um maior número de votantes do que estes. Só que algumas dessas medidas são tão ridículas que os próprios pais se revoltam; muitos não querem que os seus filhos tenham aulas de substituição; outros aparecem nas escolas a pedir para que os seus filhos não transitem, quando acham que não têm condições para tal.
Os sindicatos são muitos, desunidos e ineficazes, cujos dirigentes se encontram afastados da realidade ou mais interessados em promover carreiras pessoais, pactuando muitas vezes com decisões lesivas do respeito pela actividade docente. Alguns sindicatos limitam-se a desempenhar papéis de fantoches, servindo apenas para cooperar de forma passiva com as decisões do agrado dos governantes.
Cedendo às pressões das associações de pais, os nossos governantes concederam-lhes cada vez mais poder, tendo estas uma cada vez maior influência nas decisões que se tomam quer a nível legislativo, quer a nível do funcionamento dos estabelecimentos de ensino, relegando muitas vezes para segundo plano as propostas e as ideias dos professores. Há que perceber que as águas têm de ser separadas e que o Ensino não se deve confundir com a Família. Os papéis são complementares e diferentes, não se peça aos professores que façam também de pais. Não se peça aos professores que sejam também psicólogos, assistentes sociais e animadores culturais. Não é essa a formação nem a vocação dos professores. Para isso existem outros profissionais, cuja inclusão no sistema educativo e no apoio às famílias seria vantajosa. Os professores são depositários e transmissores de conhecimentos fundamentais, são elementos-chave da sociedade.
Os pilares duma sociedade moderna são a Saúde, o Ensino, a Justiça e a Segurança. Que se pode esperar no futuro duma sociedade que desinveste e desconsidera os profissionais destas áreas?"
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