Coisas da Educação

O Blog onde se pode falar abertamente sobre temas de educação. Não é obrigatório dizer mal do Governo, mas se tiverem que dizer mal, não se inibam... se, porventura conseguirem encontrar uma boa razão para dizer bem... também se arranja um cantinho para isso. Diremos o que nos vai na alma... ainda qua a alma nos doa... pode ser que assim... deixe de nos doer. Para além disso, tentaremos mostrar o que por aí se vai dizendo e escrevendo sobre educação. Não deixem de comentar...

Nome:
Localização: Torres Vedras, Portugal

sexta-feira, junho 16, 2006

A bela educação...O Papa e o Kamasutra...

E esta já conheciam?
Ressalvando a excessiva carga ideológica do discurso de um Deputado do Bloco de Esquerda, este texto foca inúmeros aspectos da máxima actualidade, e reforça aquilo que temos vindo a mostrar neste Blog: A ofensiva dos grupos económicos, que controlam o Governo, contra a escola pública e a democracia participativa.
Lusitano

Pergunto, logo a abrir, se alguém ainda se lembra do que está em discussão na actual polémica em torno da escola pública e das missões do sistema formal de ensino. Alguém é capaz de descrever, com clareza, qual o programa do Governo para a Educação, as suas linhas orientadoras, o seu fio condutor? Provavelmente lembrar-nos-emos apenas dos desastres, tal é o caos. Percebe-se que a ministra quer ficar na história contra o imobilismo. Daí ter lançado medidas atrás de medidas, umas razoáveis, algumas imprescindíveis, outras claramente precipitadas e de obediência à linha economicista do Governo. Não é por acaso - jamais é por acaso - que os neoconservadores e a nova direita aplaudem com alegria este ministério, no afã, explícito ou disfarçado, de lhe arrancar mais ousadia neoliberal, como o cheque-ensino e a suposta liberdade de escolha das escolas por parte das famílias. Desde logo este "famílias" tresanda a conservadorismo saudosista de mesa grande e toalha impoluta posta na mesa pela serviçal recrutada na província a cinco tostões... As "famílias" que, de facto, poderão escolher são as do costume, as que, de certa forma, já escolhem os colégios privados de prestígio onde muito provavelmente os filhos jamais conviverão, de igual para igual, com jovens de outras classes sociais, vivendo em clausura de casta, ou que projectam a admissão dos seus educandos nas escolas cimeiras do ranking, cuja publicação, ano após ano, sem avaliação aferida e contextualizada das escolas, constitui um grave crime pedagógico, uma irresponsabilidade de tremendo impacto social de que são cúmplices os jornais de referência e a preguiça do ministério, que continua a divulgar, em bruto, os resultados dos exames, critério único para a elaboração dos rankings! Como é possível que a complexidade e a riqueza transbordantes da vida numa escola possam ser reduzidas a um só indicador, tão falível como esse, que transforma as escolas, ainda por cima, nos meses que antecedem os exames, em autênticas fábricas de mnemónicas, subvertendo os fins da educação (em particular o desenvolvimento pessoal e social) em rituais de adestramento para as provas?! Grave ainda é quando as escolas públicas, infelizmente em grande número, com a cumplicidade de conselhos executivos e de parte dos professores, seleccionam os alunos à entrada (os melhores, os de classes favorecidas, os que certamente tirarão as boas notas que colocarão essas escolas no top do formidável ranking!), entrando de chofre na selva deste novo mercado educativo, enviando a "escumalha social" (os filhos dos pobres, os alunos "difíceis, os jovens "violentos") para as poucas escolas que ainda os aceitam, forjando-se também, como é sabido, turmas homogéneas que concentram, de um lado, os alunos oriundos dos "bons colégios" (geralmente atribuídas aos professores efectivos, com possibilidade de escolha de horário) e das "boas famílias", e, no outro pólo, os repetentes, os recalcitrantes, os desadaptados (destinados aos docentes novatos). Disto não fala o ministério e geralmente merece também o silêncio dos professores e dos sindicatos. É claro que há mudanças imprescindíveis. Que os resultados são medíocres, quando comparados com os investimentos, apesar de nunca tanta gente ter frequentado a escola - e já agora, que se discute o Plano Nacional de Leitura, saiba-se que nunca, como hoje, se leu tanto (consultem, por favor, os estudos sociológicos, que os há e de qualidade). Mas diga-se, insisto, qual é o objectivo crucial. Fale-se do desenvolvimento hipotecado do país, mas também, e de forma indissociável, da eliminação das persistentes barreiras sociais. Os que abandonam são os do costume. Os que acumulam reprovações são os do costume. E este é o insucesso de todo um sistema de ensino - o que é conceptualmente diferente de atirar o "insucesso" para os alunos e para os professores. E que, quando câmaras ocultas, à margem da lei e da mais elementar ética (não actuam as entidades competentes, os poderes reguladores da comunicação social, as comissões nacionais de protecção de dados?!), nos mostram uma realidade que massacra, não o podemos nem o devemos esconder, centenas de professores, nos lembremos também da violência que a escola vai causando aos alunos, aos mais desfavorecidos, abandonando-os e humilhando-os, tantas vezes, no pretexto do estereótipo da ignorância, da estupidez, ou do "tu não nasceste para isto". Assumamos, senhora ministra, que o combate é o de colocar os alunos e os jovens no centro das preocupações e não, coisa bem diferente, o de diabolizar, de forma constante e provocatória, uma classe profissional que tem de ser envolvida e não afastada dos processos de mudança. Quando o inenarrável secretário de Estado que a controla, senhora ministra, ex-quadro do CDS em Penamacor, e que perdeu o seu mandato autárquico por faltas, publica, num dia de greve de professores, uma estatística fraudulenta de absentismo docente, a mensagem é unívoca: as iniciativas e as medidas são o acessório; o principal é o combate político aos professores. Ninguém se lembrará, por isso, das suas medidas. A senhora trouxe o ruído e é hoje a principal fonte de ruído. E que as carpideiras, na feliz expressão de Rui Tavares, aquelas que, naturalmente, foram as últimas a receber uma educação de qualidade (depois delas, o dilúvio!), as que falam, frívolas e tontas, em arrasar com napalm os gabinetes da 5 de Outubro, ou em fuzilar em massa os professores existentes (que bom exemplo para a questão da violência discente!), percebam, de uma vez por todas, que o seu poder social e mediático é grande, mas que a sua ignorância, sendo atrevida, revela sobre elas muito mais do que sobre os disparates que lhes passam pela estonteada cabeça.
Pedir-lhes opiniões sobre educação é, mutatis mutandis, o mesmo que solicitar ao Papa que se pronuncie sobre o Kamasutra.

João Teixeira Lopes ( Sociólogo)